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quinta-feira, 17 de março de 2011

Rio Poluído de Azul-Jeans

Rio Pérola, no sul da China, recebe a poluição vinda da indústria têxtil de Xintang. Fotos de satélite flagraram o crime, denunciado por ambientalistas.

Com alguns cliques é possível visualizar pela internet uma agressão contra o meio ambiente que acontece na China e que envolve o consumo de uma peça comum no vestuário da maior parte das pessoas do mundo todo – o jeans. Imagens de satélite acessíveis pelo Google Maps mos­­tram riachos e córregos po­­luídos com tintura azul e outros produtos químicos serem despejados no Rio Pérola pela indústria têxtil de Xintang, no sul da China, a capital mundial da produção de jeans.

Entretanto, consumidores de lojas de departamentos não associam aquelas faixas poluentes no rio – ou qualquer outro im­­pacto ambiental – com o jeans de sua marca favorita. E, em mui­­tos casos, a empresa cujo nome aparece na etiqueta da roupa não está muito melhor informada. Mas uma nova e importante parceria entre varejistas, fabricantes de roupas, grupos ambientalistas e acadêmicos tem planos de mudar essa situação.

O grupo se autodenomina Coligação do Vestuário Sus­­ten­­tável e está desenvolvendo um banco de dados abrangente sobre o impacto ambiental de cada fabricante, componente e processo envolvidos na produção de roupas. O objetivo é usar essa informação para, mais tarde, atribuir a cada peça uma pontuação de sustentabilidade.

Depois disso, a coalizão espera produzir uma etiqueta que informaria, de algum modo, essa pontuação aos consumidores, dando-lhes uma visão muito mais detalhada sobre a origem de tecidos, zíperes, tinturas, linhas de costura, botões e anilhos que se juntam para formar a roupa que estão comprando, bem como sobre o impacto da fabricação daquela peça nas pessoas e no planeta.

A coalizão une empresas com comportamento-padrão do mercado –, como Wal-Mart, JC Pen­ney, H&M e Hanes –, a fabricantes tradicionalmente atentos às questões ambientais, como as especializadas em vestuário rústico para ambientes externos Pata­­gonia e Timberland. Os 30 membros fundadores incluem também a Duke University, dos Es­­tados Unidos, a organização não governamental Environ­­mental Defense Fund, o grupo de direitos trabalhistas Verite e a Agência Americana de Proteção Am­­biental.

Consumo

Os norte-americanos gastaram em 2010 cerca de US$ 340 bilhões (cerca de R$ 566 bilhões) em vestuário e sapatos, o que representa cerca de 25% do mercado global do setor. Pratica­­mente todos os produtos consumidos – 99% dos calçados e 98% das roupas – vieram de algum outro lugar, segundo a Associa­­ção Americana de Vestuário e Calçados. E os diferentes componentes e partes de qualquer peça de roupa – um casaco ou um par de calças, por exemplo – muitas vezes resultam de uma cadeia multinacional tão diversa de fábricas de tecido, empresas especializadas em tinturaria e confecção final que a quantificação do impacto ambiental de um único item é quase impossível.

De início, a coalizão pretende ajudar as empresas, individualmente, a tornar mais “limpa” sua cadeia de fornecedores. Os associados concordaram em viabilizar financeiramente o início dos trabalhos, apoiando o desenvolvimento de um índice de sustentabilidade. O presidente da coligação, Rick Ridgeway, que também está à frente das práticas sustentáveis da Patagonia, estima que o grupo gastará US$ 2 milhões (cerca de R$ 3,3 mi­­lhões) até o final de 2011 para criar a ferramenta.

“O pessoal se encontra em pontos variados da jornada de sustentabilidade e, trabalhando juntos, podemos acelerar nossa capacidade de promover uma mudança”, diz Alex Tomey, vice-presidente de desenvolvimento de produto e design do Wal-Mart.

Os meandros obscuros da cadeia global de fornecedores para a indústria têxtil tem sido uma preocupação para muitos grupos ambientalistas, como o Greenpeace, que denunciou as fábricas de Xintang em dezembro passado. Enquanto fabricantes individuais e pequenos segmentos da indústria começam a tentar quantificar seu impacto, só agora está a caminho um estudo consistente sobre o ciclo completo do setor de vestuário e calçados.

“A cadeia têxtil é longa e bastante complexa, e muitas das atuais empresas do ramo – as que constituíram marcas – não controlam, na verdade, todas as instalações e fá­­bricas en­­vol­­vidas na produção”, explica Cao Huan­­tian, professor as­­sociado de estudos de moda e ves­­tuário na Uni­­versidade de De­­laware. “Assim, mesmo para a companhia cujo nome aparece na etiqueta do produto pode não ser fácil estudar o ciclo de vida desse produto porque a maior parte da cadeia está fora de seu controle.”

Vazio

A nova coalizão ainda está debatendo como formalizar sua estrutura e como pretende concentrar esforços. Para Jeffrey Swartz, chefe-executivo da Tim­­berland, uma das empresas participantes da coligação, a etiqueta da sustentabilidade é apenas uma questão de tempo. “Isso virá, realmente, preencher um vazio”, diz Swartz. “O governo adota padrões para o consumo de combustível dos carros, mas no setor de vestuário não temos critérios. Essa iniciativa acabará por colocar o poder nas mãos dos consumidores, pois a indústria têxtil está anunciando a alto e bom som: ‘Vamos encontrar uma maneira de divulgar a vocês o que está por detrás de sua decisão de compra – além de simplesmente tamanho, cor e caimento’”.

Banco de dados

Ferramenta vai identificar sustentabilidade de roupas

A ferramenta que está sendo criada pela Coligação do Vestuário Sustentável pretende funcionar como um banco de dados dos pontos atribuídos a todos os participantes no ciclo de vida de uma peça de roupa – produtores de algodão, fabricantes de tecido sintético, fornecedores de tinturas, proprietários de confecções, assim como embaladores, transportadoras, varejistas e consumidores – com base em uma variedade de parâmetros sociais e ambientais, como uso da água e do solo, economia de energia, produção de resíduos, utilização de produtos químicos, gases de efeito estufa e práticas trabalhistas.

Uma marca de roupas poderia então usar a ferramenta para selecionar materiais e fornecedores a partir do cálculo da pontuação global de sustentabilidade, baseado nos padrões da indústria. Se o resultado não bater com os objetivos de sustentabilidade da própria empresa – ou se houver pressão da concorrência por uma etiqueta que convença o consumidor exibindo pontuação mais baixa –, os estilistas da marca têm a opção repensar suas escolhas para a confecção final.

A ferramenta está em desenvolvimento. Inspira-se fortemente em duas iniciativas anteriores – uma patrocinada pela Nike, focada em design ambiental, e o “Eco Index”, lançado no ano passado pela Outdoor Industry Association (que reúne fabricantes de produtos para atividades ao ar livre e de aventura). Contudo, esses recursos permitem uma visão apenas parcial ou aproximada dos efeitos potenciais de segmentos específicos da indústria.

Para obter dados mais amplos sobre o ciclo de vida de cada peça, a coalizão também trabalha perante o Consórcio da Sustentabilidade, que vem desenvolvendo formas de medir e relatar os padrões sustentáveis de muitas categorias de produtos.

Tradução de Christian Schwartz.

 





Fonte:gazetadopovo.com.br



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